O mundo do vinho é engraçado. É cheio de regras, acessórios, firulas, palavras difíceis, pompa e circunstância. E aí a gente te pergunta: quantas vezes você ouviu alguma coisa, sorriu amarelo e fingiu que sabia do que se tratava, quando, na verdade, não fazia nem idéia? Normal. Às vezes a gente fica com vergonha de dizer que não sabe, não quer parecer muito perdido, e aí deixa passar ótimas oportunidades de aprender. E o pior, a gente ainda sai repetindo muita coisa errada o que ouviu por aí, sem sequer pesquisar antes. Então, vamos combinar de nunca mais levar dúvida pra casa? VAMOS!

Para que serve o decanter, afinal? | Foto: Umami

Tá e o que esse papo todo tem a ver com o DECANTER? Faz sentido, a gente jura. A história é a seguinte: um dia fizemos um vídeo de um vinho no decanter e pensamos em postar no Instagram explicando qual a função do acessório. Mas aí bateu aquela dúvida: será que não é um post muito simples? Será que a galera não vai pensar ‘dã, a gente sabe pra que serve’? Achamos que seríamos vaiados, que o povo ia nos achar muito toscos, achar o post muito nada a ver. Mas quer saber? A gente não nasceu sabendo tudo, a gente ainda não sabe tudo e possivelmente nunca saberemos. E o primeiro passo para o conhecimento é ter humildade para admitir isso. Decidimos postar. E FOI LINDO! Recebemos muitas mensagens agradecendo o post e dizendo coisas do tipo ‘eu tenho um em casa e nunca tive coragem de perguntar pra que serve’. O medo de errar vive nos boicotando. Não deixem isso acontecer. Mas enfim, este é um post sobre decanter, não sobre medo de errar, então, né, vamos ao que interessa.

O DECANTER

O decanter é um recipiente de vidro ou cristal, com o bojo mais largo, mas que pode ter formatos muito diferentes, que tem duas funções principais: DECANTAR e OXIGENAR um vinho.

  • Decantar um Vinho

Decantar, por definição, é o ato de separar misturas heterogêneas. Pode ser uma mistura de dois líquidos de densidades diferentes (água e óleo), ou de líquido e gás (vapor d’água e ar), sólido e gás e, o que nos interessa de verdade, líquido e sólido.

Alguns vinhos antigos, ou mesmo vinhos jovens, mas que não foram submetidos a processos de filtração e clarificação, podem apresentar sedimentos no fundo da garrafa. Não se trata de defeito, mas eles podem apresentar uma textura desagradável no paladar e, às vezes, até agregar um sabor amargo à bebida. Por isso, a grande maioria das pessoas opta por decantar o vinho.

Decantação de um vinho com sedimentos | Foto: Umami

É importante lembrar que, no caso dos vinhos mais antigos e já evoluídos, o contato com o oxigênio por um tempo mais longo pode ser perigoso, pois ele acelera o processo de oxidação, que pode acabar matando o vinho. Por isso, o processo de decantação deve ser feito de forma eficiente, a fim de não expôr a bebida ao ar por tempo demasiado. Para isso, basta seguir os seguintes passos:

  1. deixe a garrafa em posição vertical por algumas horas antes de abrir (o ideal mesmo é de um dia para o outro), para que os sedimentos se concentrem no fundo;
  2. posicione uma vela ou mesmo a lanterna do celular na mesa à sua frente, de maneira que, ao derramar o vinho da garrafa para o decanter, você consiga enxergar através do gargalo.
  3. despeje o vinho devagar, segurando o decanter em uma mão e a garrafa na outra, sem que ela ultrapasse a posição horizontal.
  4. quando você enxergar que os sedimentos estão chegando no gargalo, pare de servir.

Para facilitar a vida, fizemos um vídeo bem curtinho que ilustra bem tudo isso.

Se você quiser aproveitar o restante do líquido que permaneceu na garrafa com os sedimentos, será preciso usar uma espécie de coador, como um filtro de café, por exemplo. De qualquer forma, não faça isso direto no decanter. Caso o filtro se rompa (o que é bem comum), todo sedimento será misturado novamente no vinho, e você terá passado trabalho em vão. Na hora de aproveitar o restinho da bebida, filtre em uma taça.

De qualquer forma, serão poucos os vinhos que você precisará decantar. A grande maioria dos vinhos no mercado são filtrados ou não possuem um potencial de guarda muito grande, então dificilmente evoluirão a ponto de formar sedimentos.

  • Oxigenar um Vinho

A segunda e mais utilizada função do decanter é a de oxigenar o vinho. Por mais que soe estranho, já que vinho oxidado quase sempre é sinônimo de vinho estragado, a exposição da bebida ao oxigênio em doses corretas pode fazer muito bem a certos tipos de vinhos, pois é capaz de acelerar a sua evolução e ressaltar os seus aromas, além de integrar melhor o álcool e os taninos, tornando a bebida mais agradável e macia ao paladar. Claro que, se você deixar o vinho no decanter por tempo indeterminado, ele vai evoluir até o ponto de tornar-se intragável. Sabe aquele vinho que você esqueceu aberto na geladeira por uns dez dias? Então, tipo isso.

Não existe uma regra no que diz respeito a QUAIS vinhos se beneficiam da oxigenação, nem por QUANTO TEMPO eles devem ficar expostos no decanter. Essa é uma questão que a experiência (leia-se: testar, testar e testar) vai facilitar.

Girar o decanter, assim como você faz com a taça, acelera a oxigenação | Foto: Umami

  • De modo geral, todos os vinhos mais jovens podem se beneficiar da oxigenação, principalmente aqueles tintos mais encorpados e com nível mais alto de taninos, como Tannat, Syrah e Cabernet Sauvignon, por exemplo.
  • A oxigenação também pode auxiliar na eliminação de aromas desagradáveis provenientes da redução. Se a oxidação é excesso de contato do vinho com o ar, a redução é o extremo oposto. Durante a vinificação, o produtor costuma proteger ao máximo a bebida do contato com o oxigênio, o que dificulta a polimerização das moléculas, gerando aromas desagradáveis, como fósforo queimado, ovo podre ou esgoto – o famoso cheiro de “peidinho” (rs). Aerar o vinho no decanter pode diminuir ou mesmo extinguir esses aromas. Neste caso, agitar o decanter (girando freneticamente, exatamente como você faz com a taça) pode ser necessário.
  • Lamentamos informar, mas deixar a garrafa aberta horas antes de consumir o vinho vai apenas te fazer perder horas de vida. Aquele 1cm de área do gargalo não é uma superfície de contato suficientemente grande, capaz de oxigenar os 750ml de vinho que estão na garrafa. Aliás, é por isso que o decanter tem o bojo largo, para que a área de contato da bebida com o ar seja suficientemente grande para oxigenar o vinho. A gente sabe que tem um monte de gente que bebe vinho há um tempão, que estuda, e que faz isso, mas a verdade é que é só repetição. A gente vê alguém fazendo, não questiona e faz também. Alguém nos vê e repete, e o equívoco vai se propagando. No fim das contas, deixar a garrafa aberta não serve pra nada. Se você quer oxigenar a bebida e tá sem decanter (ou tá com preguiça de usar), o correto é colocar o vinho em taças e deixar ele oxigenar por ali. O bojo da taça tem um formato muito mais adequado para esse processo.

Alguns vinhos precisam de apenas 20min para abrir os seus aromas e amaciar, enquanto alguns mais estruturados podem precisar de até 2hs. A dica é: deixe o vinho no decanter por 30min, experimente e veja se ele evoluiu. Vá bebendo e testando até encontrar o ponto ideal, mas tenha em mente que a grande maioria dos vinhos vai mostrar o seu ponto ideal entre 30 a 60min de decanter, e já está mais do que bom.

E OS BRANCOS?

A discussão sobre aerar ou não vinhos brancos parece nunca ter fim, e ninguém consegue chegar a um consenso. Há quem defenda que alguns (principalmente aqueles mais encorpados, que passam por barrica, como os brancos da Borgonha e alguns Chardonnay da California, por exemplo) podem se beneficiar da oxigenação, e há quem diga que não faz absolutamente nenhuma diferença na bebida.

Fato é que, desde que não sejam vinhos super antigos, que possam ser comprometidos com a exposição ao oxigênio, ficar uns minutinhos no decanter para respirar não vai causar nenhum mal para a bebida. O máximo que pode acontecer é não haver mudança significativa.

Lembrando que brancos com características de redução, como mencionamos no subtópico anterior, vão precisar sim de uma oxigenação vigorosa.


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