O dia 24 de novembro celebra no mundo todo o Dia da Carménère, uma uva que nasceu na França, mas que cruzou o Oceano Atlântico e encontrou o seu lugar ao sol no Chile, onde permaneceu, aparentemente, disfarçada de Merlot por uns bons anos. Não entendeu nada? Calma que a gente explica.

Vinhedos da Siegel Family, no Vale de Colchagua | Foto: reprodução / Siegel Family

ORIGEM E TRAJETÓRIA

A Carménère é uma uva francesa, originária de Bordeaux. É uma das 6 castas tintas permitidas nos cortes dos vinhos da região, ao lado da Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Malbec e Petit Verdot, mas pouco utilizada por lá hoje em dia.

Assim como a Malbec, a Carménère nunca se deu muito bem no clima difícil de Bordeaux, muito úmido e chuvoso, onde sempre enfrentou bastante dificuldade em amadurecer. Após a praga da Filoxera, que atingiu a região a partir de 1857 e dizimou quase todos os vinhedos, os produtores optaram por variedades mais rentáveis e de cultivo mais fácil na ocasião do replantio, o que acabou extinguindo a uva quase que por completo.

Por sorte, pouco antes da Filoxera devastar vinhedos na Europa, algumas mudas de Carménère foram levadas ao Chile, que estava no início de sua produção vitivinícola. As videiras foram plantadas nos vales ao redor de Santiago, junto com outras variedades bordalesas e, rapidamente, começaram a florescer no novo clima que, com chuvas escassas e dias quentes, permitiu o amadurecimento completo de seus frutos.

O único petit probleme é que ninguém sabia que aquela uva era a Carménère.

Em um dos enganos mais curiosos da história vitivinícola mundial, a Carménère foi confundida com a Merlot, e plantada com este nome por todo o país. Durante o século seguinte, os produtores chilenos começaram a perceber que havia uma grande variedade mudas de Merlot em seus vinhedos e que boa parte delas era visualmente muito diferente das mudas trazidas mais recentemente, com folhas que se tornavam avermelhadas muito cedo e de forma mais intensa que as demais. Além disso, seus vinhos de ‘Merlot’ tinham um paladar completamente distinto de outros Merlot do mundo.

Assim, as antigas mudas de Carménère foram renomeadas como Merlot Chileno, tornando o país muito famoso por seu estilo único de Merlot. Que não era Merlot.

Foi então que, no dia 24 de novembro de 1994 (daí a celebração da Carménère acontecer nesta data), o pesquisador francês Jean-Michel Boursiquot, que estava visitando o Vale do Maipo, avistou as diferentes videiras em um vinhedo de Merlot. Ele imediatamente identificou parte delas como a extinta (ou presumidamente extinta) uva Carménère. Testes foram, então, realizados e provaram que ele estava certo.

Folhas de Merlot e de Carménère

Apesar dessa ter sido uma das descobertas vitícolas mais empolgantes do século, a transição não foi fácil. Muitos enólogos que vinham vinificando a variedade como Merlot há décadas foram bem relutantes à mudança no início do processo. Além disso, muito estudo e experimentação foram necessários, afinal, ninguém havia, conscientemente, vinificado Carménère nos últimos cem anos. Com quase 100% do total de videiras da variedade estando em seu território, este se tornou um desafio exclusivamente chileno.

Nos quase 25 anos que se passaram desde a sua descoberta, a indústria do vinho chileno evoluiu muito com a variedade, produzindo vinhos de classe internacional, que se tornaram famosos em todo o mundo e elevaram a uva a símbolo do país. O sucesso da variedade, inclusive, inspirou os produtores de vinho nos EUA, Austrália, Nova Zelândia, Argentina e até mesmo em Bordeaux a cultivar Carménère a partir de mudas chilenas.

CARACTERÍSTICAS

A Carménère é uma uva que amadurece cerca de 4 a 5 semanas após a Merlot, o que significa que ela necessita de mais tempo de espera (e de clima bom) para conseguir atingir a maturidade completa. Produz cachos pequenos com bagos bem escuros, e, durante o outono, suas folhas mudam completamente de cor, assumindo um tom que permeia entre o vermelho e o laranja. Ela se desenvolve de maneira promissora em solos arenosos, onde produz vinhos elegantes e aromáticos, e argilosos, onde produz vinhos mais ricos e estruturados.

Carménère ainda no pé, com folhas já na famosa tonalidade carmim | Foto: Creative Commons

A Carménère é conhecida por produzir vinhos com sabores de frutas vermelhas e com uma nota inconfundível de pimenta, pois, assim como a Cabernet Sauvignon, a Cabernet Franc e outras uvas da região de Bordeaux, a ela contém altos níveis de pirazina, composto que dá aos vinhos sabores de pimentão, pimenta verde, eucalipto e até cacau. 

São vinhos com taninos fininhos e maduros, bom corpo e boa acidez, o que os torna muito macios e fáceis de beber. Todas essas características fazem deles vinhos muito versáteis na hora da harmonização. Quem quiser ir para o lado certeiro, pode combinar com carnes magras grelhadas, acompanhadas de molhos como Chimichurri, hortelã ou pesto, que complementam as características herbáceas do vinho e intensificam os seus sabores frutados. Quem quiser dar uma variada, pode combinar com algumas carnes brancas escuras, como pato.

CURIOSIDADES

Para fechar, (mais) algumas curiosidades sobre a Carménère:

  • A Viña Carmen foi a primeira vinícola do Chile a lançar um Carménère de verdade (isto é, sabendo se tratar de Carménère), em 1996, mas o fez sob o nome de Grande Vidure, já que a variedade recém descoberta só foi inscrita no Ministério da Agricultura e aprovada por lei em 1998.
  • Apesar de ser considerada um símbolo do país, ela não é a uva mais plantada do Chile. As variedades mais cultivadas são, na verdade, a Cabernet Sauvignon (35%), a Sauvignon Blanc (15%), a Merlot (12%) e, só em quarto lugar, a Carménère, Syrah e Chardonnay (cerca de 10% cada).
  • A região do Chile que tem a maior área plantada de Carménère é o Vale do Colchagua.

Vamos abrir um Carménère hoje? | Foto: creative commons


Aprenda sobre outras uvas:


GOSTOU? Para novidades diárias, nos siga também no Instagram e inscreva-se em nosso canal no Youtube e em nosso Podcast (também disponível no iTunes)!