Já ouviram falar de vinhos que envelhecem em caves submarinas? Pois então, a Miolo se tornou a primeira vinícola brasileira a realizar este processo!

No dia 21 de outubro de 2016, a Vinícola Miolo submergiu um lote de 500 garrafas do espumante Miolo Cuvée Tradition Brut nas águas da Ilha de Ouessant, na Bretanha (FR). Ouessant fica a 30km da costa de LeConquet e do Pico de Pern, ponto mais ocidental da França. A idéia por trás deste processo é buscar condições ideais de escuridão, umidade, temperatura e pressão nas caves submarinas, em uma constância dificilmente alcançada em uma cave normal. Os espumantes da Miolo permaneceram submersos por um ano, de outubro de 2016 a outubro de 2017.

Caixa de 500 espumantes fotografada no momento em que foi submersa, em 2016 | Foto: Divulgação / Miolo

O mapa do local exato onde os espumantes foram submersos acompanha a garrafa | Foto: Umami Mag

Fomos apresentados a uma das garrafas do projeto – chamado de Miolo Under the Sea – por Adriano Miolo. Os resquícios de vida submarina, como pequenos musgos, foram mantidos e a garrafa foi acondicionada em uma linda embalagem, que imita um escafandro. O produto, que será comercializado ainda este ano, também vem com um mapa que mostra a posição exata onde o lote foi submerso e dá informações sobre todo o processo, inédito no país.

As primeiras garrafas do projeto Miolo Under the Sea foram apresentadas a nós durante uma press trip, no último sábado, 9 de fevereiro de 2019 | Foto: Umami Mag

Os resquícios de vida submarina foram mantidos e a embalagem imita um escafandro | Foto: Umami Mag

A HISTÓRIA DO ENVELHECIMENTO SUBMARINO DE VINHOS

O envelhecimento de vinhos embaixo d’água é inédito no Brasil, mas já vem acontecendo há um tempo em outros países.

Tudo parece ter começado com algumas descobertas recentes. Em 2010, foram encontradas 168 garrafas de Champagne a bordo de um navio do século 19, que havia naufragado no Mar Báltico. Algumas delas, mesmo com mais de 170 anos de idade, estavam em bom estado e com pequenas borbulhas ainda perceptíveis. Uma das garrafas resgatadas nesta ocasião, da Maison Veuve Clicquot,  chegou a ser arrematada em um leilão, pela impressionante quantia de € 15.000.

168 garrafas produzidas entre 1839 e 1841 foram encontradas próximo a um local de naufrágio | Foto: reprodução / Veuve Clicquot

Depois desta descoberta, a Veuve Clicquot criou o Cellar in the Sea, um experimento para analisar o comportamento de seus Champagnes quando submetidos a um envelhecimento subaquático por um período de 50 anos, próximo ao local daquele naufrágio mencionado acima. Elas foram submersas em 2014 e ainda têm alguns bons anos de estudo pela frente.

Assim como em todos os processos da vitivinicultura, cada produtor tem uma visão diferente. Filtrar ou não o vinho antes de envelhecer, o método escolhido para o fechamento da garrafa (pois não são apenas espumantes que têm sido submersos, mas também vinhos tranquilos tintos, brancos e rosés), assim como o local designado para o envelhecimento, a temperatura da água e a profundidade onde os vinhos foram acomodados, são todos fatores importantes, que podem influenciar bastante no resultado final.

Projeto Cellar in The Sea, da Veuve Clicquot | Foto: reprodução /Veuve Clicquot

Mas a pergunta que todos devem estar se fazendo é: QUAL O EFEITO DISSO NA BEBIDA?

Muitos estudos estão sendo realizados, com resultados muito positivos, mas ainda incertos, já que é uma descoberta bem recente. A vinícola californiana Mira Winery, que está entre os líderes da pesquisa neste campo (e apelidou o método de aquaoir, um trocadilho com terroir), concluiu que as garrafas possuem um envelhecimento mais acelerado quando deixadas embaixo d’água. Um bom exemplo é o seu Cabernet Sauvignon 2009 que, deixado submerso por apenas três meses, mostrou, em degustações e análises, um envelhecimento equivalente a dois anos a mais do que o mesmo vinho deixado para envelhecer em caves convencionais.

O mesmo resultado positivo tem sido alcançado por outras vinícolas do mundo, que repetiram o experimento. Abaixo, uma lista de algumas delas (e o local escolhido para o teste), às quais a brasileira Miolo se junta:

  • Bisson Abissi Prosecco | Liguria, Italy
  • Raul Perez Sketch | Dena, Spain
  • Château Champ des Soeurs et l’Abbaye Sainte-Eugénie | o Château submergiu um Corbiéres branco, fechado com rolha sintética pela Nomacorc em Fitou, na França.
  • Louis Roederer | Baía do Mont Saint-Michel, na Normandia
  • Chateau Larrivet Haut-Brion |ao invés de garrafas, escolheu envelhecer um barril 56 litros de Bordeaux na Baía de Arcachon (sudoeste da França). Chamou o projeto de Neptune
  • Gaia Winery | Santorini, na Grécia
  • Henri Maire (Arbois) | Lago de Vouglans, o terceiro maior lago artificial da França
  • Chillon Castle e Badoux Wine | em um experimento conjunto, os produtores submergiram seus vinhos para um envelhecimento de 20 anos

Para quem quiser saber um pouco mais sobre este tópico, encontramos duas matérias bem interessantes (em inglês) sobre o assunto, uma do NY Times e a outra do Telegraph UK.


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