Lisboa é uma das cidades mais visitadas da Europa, mas o que pouca gente sabe é que seus arredores abrigam regiões vitivinícolas muito interessantes. A apenas 35min de trem de Lisboa está Sintra, cidade super turística, muito conhecida por seus castelos e palácios. E é em Sintra, a 7km do centro histórico, que está a freguesia de Colares, região costeira, que produz vinhos muito especiais, com uvas provenientes de videiras plantadas na areia da praia.

Azenhas do Mar, em Colares. | Foto: Umami Mag

COLARES DOC

A região produtora de Colares DOC é a segunda mais antiga de Portugal, atrás apenas do Douro, e é demarcada desde 1908, apesar da vitivinicultura existir por lá desde antes de 1200. A pequena faixa territorial é a menor região produtora de vinhos tranquilos de todo o país e resiste bravamente à expansão urbana e à especulação imobiliária que rondam a área.

Colares | Foto: Umami Mag

Viticultura

A região é delimitada pelo Oceano Atlântico de um lado, e pela Serra de Sintra do outro, dois elementos que exercem grande influência no terroir de Colares. Como estão situadas muito perto do mar, as videiras estão sujeitas a ventos marítimos muito fortes, que podem ser devastadores e, por isso, paliçadas de bambu são espalhadas entre os vinhedos para servir de corta-vento e proteger as folhas e frutos das rajadas mais fortes. 

A videiras de Colares na areia da praia, protegidas do vento por paliçadas | Foto: Umami Mag

Em Colares, não existe fator tão fundamental quanto o solo, que é dividido em duas categorias principais: o chamado chão de areia, literalmente areia da praia, e o denominado chão rijo, composto por solos argiloso-calcários. No entanto, o Estatuto que regula a vitivinicultura na região não permite que sejam usados mais de 10% de uvas provenientes de chão rijo nos vinhos Colares DOC, tamanha é a importância do chão de areia. Os vinhos que ultrapassem a marca permitida, e utilizem mais do que 10% de uvas provenientes de chão rijo, são rotulados como Vinho Regional de Lisboa.

O chão de areia de Colares não é famoso à toa: foi ele que salvou as videiras da região da devastação que a praga da filoxera causou em toda a Europa no final do século 19. A filoxera é um inseto minúsculo, parecido com um pulgão, que ataca as raízes das videiras e suga a sua seiva. O inseto, no entanto, não conseguiu sobreviver e se espalhar no chão de areia de Colares, razão pela qual existem, por lá, videiras pré-filoxéricas, com mais de 140 anos, e ainda produtivas. Elas são as videiras mais antigas de Portugal, e vimos algumas de perto na nossa visita à região, acompanhados de Francisco Figueiredo, enólogo da Adega Regional de Colares.

Todo o verde nesta foto é uma só videira, de cerca de 140 anos | Foto: Umami Mag

A plantação em chão de areia não é tarefa fácil, e é regulada por lei. Inicialmente, para a implantação da vinha, é necessário realizar a retirada da areia até alcançar o solo argiloso que fica abaixo dela, o que pode significar cavar buracos de muitos metros de profundidade. Neste solo de argila, são plantadas – ou unhadas, como se diz na região – as vinhas, que devem ser de pé-franco. Ao longo de mais ou menos 3 a 4 anos, a areia vai sendo reposta, até que a videira se encontre em um terreno regular e inicie sua produção.

As videiras crescem rasteiras, estendendo-se pelo chão, sem qualquer tipo de condução. Quando inicia a fase de crescimento da uva, os galhos são escorados e elevados por pequenas varas de madeira, de cerca de 30cm, para que os cachos não fiquem em contato direto com a areia quente do verão, que poderia queima-los.

Foto: Umami Mag

As Uvas e os Vinhos

A rainha da região é a uva tinta Ramisco, uma casta que origina vinhos de baixo teor alcoólico (raramente ultrapassa 11.5%), com aromas complexos e nível MUITO alto de taninos. Os vinhos tintos de Colares são conhecidos por sua adstringência, pela dureza que apresentam no paladar quando jovens, que só ameniza com o estágio em madeira (no mínimo 18 meses, obrigatoriamente) e em garrafa (por um período não inferior a 6 meses, segundo o regulamento da região). Os produtores, no entanto, costumam estender consideravelmente este período. O vinho mais jovem à venda na Adega Regional de Colares em 2018, por exemplo, é da safra de 2009. A vinícola esperou 9 anos para colocá-lo no mercado e ele ainda é, claramente, um vinho bem jovem, com muito espaço para evoluir e para amaciar.

Para diminuir a sua agressividade, o regulamento da Região Demarcada de Colares permite a incorporação de até 20% de outras três castas da região, a Molar, João Santarém e a Parreira-Matias, sendo as duas primeiras as mais utilizadas.

Arenae Ramisco Colares DOC 2009 | Foto: Umami Mag

Tal como os tintos, os vinhos brancos de Colares são complexos e muito interessantes. São produzidos com a Malvasia de Colares, uva autóctone da região que, assim como a Ramisco, também é plantada em pé-franco (sem enxertia de raízes americanas). Passam por um envelhecimento obrigatório de 6 meses em madeira e 3 em garrafa, quase sempre estendido pelos produtores. Seguindo o exemplo dado anteriormente, o Colares DOC branco à venda na Adega Regional de Colares em 2018 era o da safra de 2015, já com 3 anos e, tal como o tinto, ainda super jovem.

Em geral, os brancos de Colares costumam apresentar corpo médio, acidez super refrescante e notas de frutas cítricas que se misturam a especiarias doces, como anis e mel. Na boca, uma de suas principais características é a salinidade – um gostinho de mar! – que, somada a percepção adocicada do mel, deixa um final quase agridoce no paladar. É um daqueles vinhos que dá sede e mata a sede ao mesmo tempo, em um ciclo instigante de sabores inusitados e complexos.

Para serem rotulados como Colares DOC, os brancos precisam levar, ao menos, 80% de Malvasia de Colares em sua composição. Os 20% restantes podem ser preenchidos com as uvas Arinto, Galego-Dourado e Jampal. 

Arenae Malvasia Colares DOC 2015 | Foto: Umami Mag

Os Produtores da Região

Em 1931, com o objetivo de garantir a qualidade e a origem dos produtos vinícolas da região, foi fundada a Adega Regional de Colares, a adega cooperativa mais antiga do país. Em 1934, através do Decreto-Lei n.º 24.500, de 19 de Setembro, foi designada à Adega a tarefa exclusiva de elaboração dos vinhos de Colares. Ou seja, por muitos e muitos anos, todo o vinho de Colares era obrigatoriamente vinificado pela Adega Regional, restando aos produtores apenas a tarefa de armazenar o vinho para envelhecimento.

Adega Regional de Colares | Foto: Umami Mag

Adega Regional de Colares | Foto: Umami Mag

Adega Regional de Colares | Foto: Umami Mag

Hoje em dia, a obrigatoriedade já não existe mais, mas a Adega Regional ainda detém a maioria da produção (mais de 50% do volume total) e produz vinhos para quase todos os produtores individuais da região. É preciso levar em consideração, também, que a maioria dos produtores não possui vinhedos próprios em chão de areia, restringindo-se a posição já tradicional na região de produtores-engarrafadores.

Aliás, o número de adegas na região é tão pequeno, que dá pra contar nos dedos, literalmente:

  • Adega Cooperativa Regional de Colares
  • Adega Beira Mar
  • Adega Visconde Salreu
  • Adega Viúva Gomes
  • Casal de Santa Maria

A região e a produção são tão pequenas que, salvo safras antigas à venda e novos produtores que, porventura, venham a surgir, são produzidos atualmente apenas 8 vinhos Colares DOC diferentes: quatro brancos e quatro tintos. Loucura, né?

Assista ao vídeo que gravamos por lá:


Quer saber mais sobre Colares?

Então temos uma ótima notícia! Durante a nossa visita, gravamos um PODCAST muito bacana com Francisco Figueiredo, o enólogo-chefe da Adega Regional de Colares, responsável por produzir mais da metade dos vinhos da região desde 2002. Dá o play e te diverte!

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