PRIMEIRA PARADA: CONSTANTIA

(parte 2)

É possível que você já tenha ouvido falar no Vin de Constance, um vinho de sobremesa que ganhou fama internacional por ser uma das bebidas favoritas de Napoleão. Passados mais de duzentos anos, o imaginário que cerca o Vin de Constance permanece vivo, e muitos especialistas seguem afirmando que ele está à altura dos melhores vinhos doces do mundo. Estamos falando de uma bebida que, assim como o Sauternes francês e o Tokaji húngaro, recebeu uma mãozinha da natureza para a desidratação das uvas, por meio da ação da botrytis. Esse fungo de nome charmoso deixa a casca da uva porosa o suficiente para a água escapar, mas concentra os nutrientes. O resultado são vinhos de sabores intensos e muito marcantes!

Uvas em processo de desidratação | Foto: Álvaro Lima

No último texto escrevi sobre a produção de tintos e brancos de qualidade na região. Hoje quero falar dessa “cereja no bolo”, o Vin de Constance, e também mostrar algumas opções de vinhos a preços mais em conta que conquistaram meu coração por lá.

COM DULÇOR

Groot Constantia e Klein Constantia compunham historicamente aquela propriedade original, chamada apenas de Constantia, que foi a primeira a produzir o lendário vinho doce. Desmembrados e após várias trocas de mãos, os domínios são hoje independentes e fazem, cada um, sua própria versão do vinho – com diferenças consideráveis no resultado final (para os fãs de história, vale acrescentar que os prédios originais ficaram na propriedade da Groot Constantia)!

Parte das diferenças entre as duas versões do Vin de Constance se deve aos “avanços” relativamente recentes na técnica de produção. A receita original ficou perdida por mais de cem anos, e foi necessário o trabalho conjunto de enólogos e historiadores para redescobrir, nos anos 1990, o método usado nos tempos de Napoleão. Desde então, essas duas grandes vinícolas estimulam os produtores menores a fabricar seus próprios rótulos, visto que a demanda mundial é maior que a oferta.

Estrutura original na Groot Constantia | Foto: Álvaro Lima

Por enquanto, devido às dificuldades técnicas e custos de produção mais elevados, o único outro produtor a usar essa fórmula complexa e fazer jus à rotulagem é uma pequena fazenda que fica colada nas duas, mas que não tem volume para venda comercial fora da propriedade… Por essa razão, dá para se dizer que há atualmente dois produtores e meio fabricando Vin de Constance!

O QUE É? 

A técnica utilizada no Vin de Constance é realmente única e não me lembro de ter lido sobre ela em nenhum livro ou manual traduzido para a língua portuguesa. Me arrisco a dizer que essa será a primeira vez que alguém registra sua fabricação em detalhes no Brasil, registrando aquilo que pude espiar a produção das duas vinícolas mencionadas acima. Se alguém conhecer uma referência anterior (correta e completa), me avisa, que eu gostaria de ler. Vamos lá?

Klein Constantia é a responsável pelo reaparecimento do Vin de Constance no mercado em sua forma atual. Para tanto, eles replantaram em 1983 o Muscat de petits grains, uva usada originalmente pelos holandeses. Depois de algumas experiências, os enólogos entenderam que o segredo do vinho nunca esteve em copiar as receitas usadas na região de Sauternes, em Bordeaux, e sim em associar técnicas utilizadas para fazer o vinho doce Tokaji, na Hungria. 

Vin de Constance, na Klein Constantia | Foto: Álvaro Lima

A técnica em questão consiste em colher parte das uvas ainda verdes, com mais acidez e frescor (além de baixo teor alcóolico), vinificando essa primeira leva separadamente. As uvas sobremaduras são colhidas posteriormente e deixadas em contato com esse vinho, passando açúcar e nutrientes para ele. O método foi incorporado pela Groot Constantia. Atualmente, seu vinho é até mais famoso, embora custa metade daquele produzido pela outra vinícola.

A inovação não termina aí: as cascas, altamente ricas em sabor, ficam em contato com o vinho por um período de três a seis meses, com remontagens constantes! Esse processo aumenta a presença de taninos, dá uma coloração avermelhada adicional e um toque aromático oxidativo para o Vin de Constance produzido em Groot Constantia. Já na versão desenvolvida por Klein Constantia, a técnica ressalta as notas de nozes e amêndoas, além de manter a acidez elevada, com uma versão mais encorpada e elegante. Ambos os vinhos são deliciosos e memoráveis, cada um como uma leitura particular dessa técnica, mas tão diferentes quando tomados no mesmo dia!

Produção de Vin de Constance, na Klein Constantia | Foto: Álvaro Lima

Outra diferença entre as duas metades da propriedade original de Constantia é que, enquanto a Klein dá prioridade para os vinhos brancos, a Groot explora um universo muito amplo, fabricando desde espumantes até ótimos tintos e brandies, além de oferecer uma experiência turística completa ao visitante (ironicamente, eles fabricam um total de 600 mil garrafas anualmente, e recebem mais de 500 mil turistas por ano!).

BOM E BARATO

Para quem não tiver tempo de parar em todas as vinícolas, a opção mais simples é escolher o estilo de vinho que deseja provar e priorizar vinícolas que se destacam nessa linha. Mesmo assim, queria recomendar duas paradas para quem quiser provar um pouco de tudo sem ter esse trabalho ou gastos exagerados.

A primeira vinícola “generalista” da minha lista é a própria Groot Constantia, que reúne boas opções de vinhos em estilos bem diferentes e a preços às vezes menores que concorrentes menos famosas (duas dicas: o Gouverneur’s Reserve White e o Gouverneur’s Reserve Red valem cada centavo!). Além disso, a propriedade exibe a história da região, com exposições permanentes e uma grande área aberta para levar crianças. Outro diferencial curioso é que eles têm três salas diferentes de degustação, cada uma com uma proposta própria, para acomodar o grande fluxo de visitantes.

Groot Constantia | Foto: Álvaro Lima

Groot Constantia | Foto: Álvaro Lima

A segunda dica é a Steenberg. O lugar é um luxo, com um restaurante igualmente fino – mas eles têm versões de excelente custo-benefício para os vinhos brancos (de entrada ou mais complexos, como o Black Swan Sauvignon Blanc), espumantes acima da média (recomendo o 100% Pinot Noir a 235 rands) e até um vinho doce natural (não é um Constantia, mas mereceu lugar na mala). Quem quiser dar uma parada na Steenberg e comprar algumas garrafas, garanto que não vai se arrepender.

Steenberg | Foto: Álvaro Lima

Cenas do próximo capítulo:

No próximo post, irei para Hemel-en-Aarde – lugar que produz Pinots Noir e Chardonnays memoráveis e que, na tradução literal, significa “Paraíso na Terra”. Até lá!


TUDO SOBRE A ÁFRICA DO SUL

  1. Enoturismo na África do Sul – Introdução
  2. Constantia e Seus Vinhos Secos
  3. Constantia e o Vin de Constance

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